A mística do insólito em Primeiras estórias, de Guimarães Rosa

Resumo: Que a obra de Guimarães Rosa esteja prenhe de um desejo pelo incomum, surpreendente e estranho, procurando descortinar do cotidiano banal o maravilhamento com o real, transformando o olhar pelo trabalho da linguagem, isso a crítica rosiana tem observado desde sempre. Os procedimentos de modificação da linguagem são vários: uso de vocábulos raros, regionalismos, criação de neologismos, modificação de chichês, frases feitas, expressões, sintaxe reelaborada a partir do falar regional, etc. No plano da narrativa, a seleção de ocorrências estranhas, cheias de enigmas e ressonâncias metafísicas, personagens que encarnam “seres de exceção” (COVIZZI: 1978, p. 65), etc. Sem chegar a introduzir fatos certamente sobrenaturais, porém sempre estranhos mas possíveis, para apontar o caráter insólito do mundo real e não só na imaginação literária, Rosa privilegia o insólito como um modo de transfiguração do olhar (“ela olha para tudo com singeleza de admiração” em ROSA: 1972 , p. 129) e transformação da experiência mundana. A crítica tem mais ou menos atentado para o caráter insólito na obra e para tal estruturação.
O principal estudo sobre o assunto, de Lenira Marques Covizzi, O insólito em Guimarães Rosa e Borges, afirma que Rosa é um regionalista irrealista, e se serve da denominação de Antonio Candido, “surregionalista” (COVIZZI: 1978, p. 58). Covizzi persegue boa parte do conjunto de ocorrências insólitas do livro (COVIZZI: 1978, p. 63- 88) e toda a sua análise da obra privilegia Primeiras estórias, contendo depois um anexo de Tutaméia. Contudo, ela não observa em Rosa uma radicalização joyceana do “irrealismo do nonsense” (COVIZZI: 1978, p. 76), pois “acompanhamos o enredo sem maiores dificuldades”, daí que Rosa mantém uma tensão do insólito com o sólito, mas penso que ele retira do reconhecimento do enredo uma oportunidade de entrar em contato com o estranho. Numa visão mais vanguardista, Haroldo de Campos não deixou de comparar com Joyce seu efeito de nonsense na assimilação de palavras da língua tupi em “A linguagem de Iuaretê” (COUTINHO: 1991, p. 574-579). Se compararmos com obras de mais difícil assimilação, de Mallarmé, Joyce ao próprio Haroldo de Galáxias e o surrealismo de Roberto Piva, observamos que, para o leitor médio, a sensação de surpresa com o insólito não ocorre simplesmente porque não há uma base sólita de reconhecimento das funções ficcionais. No caso de um vanguardismo mais radical, como escrevi no “III Painel Reflexões sobre o Insólito na narrativa ficcional”, é o leitor que deve construir por si mesmo as coordenadas básicas para a fruição estética. No caso de Rosa e de Borges, segundo Covizzi, ainda há uma base narrativa e um fundo social regional extremamente ligado a experiências históricas populares em tensão com modificações lingüísticas e ânsias metafísicas. Inclusive todas as transformações da língua estão estritamente baseadas na fala popular, jogando uma instituição contra a outra (a regra e lógica gramatical contra os dialetos e a própria virtualidade de modificações possíveis da língua portuguesa), ou seja, duas estruturas sólitas em conflito resultam numa estética insólita. O que mais nos interessa destacar aqui é a perspicaz conclusão de Covizzi ao apontar que toda a estranheza serve para chegar a uma experiência de revelação: “Podemos sintetizar a estrutura das narrativas como aquela que configura a exceção que causa estranheza”, e adiante “que é encaminhada para a revelação (resolução) nem sempre racionalmente explicável”. A conclusão é “Tem-se a sensação de se estar sendo iniciado nalgum mistério que desembocará em alguma forma de estado de graça” (COVIZZI: 1978, p. 85). Mas o que é um estado de graça do ponto de vista da literatura moderna, qual a relação dele com a mística ocidental tradicional e a mística em geral, isso o estudo clássico de Lenira não responde, e penso que mesmo o livro de Francis Utéza, assim como outros que abordam o assunto, por mais que avance muito no problema e seja referência obrigatória, mantém um conceito anistórico de “hermetismo”, um intuicionismo bergsoniano e um psicologismo junguiano que considero prejudiciais para a reflexão teórica, em vez de ajudarem. Tais interpretações justificam o preconceito que muitos mantêm contra a mística na universidade. Logo, entre o fascínio e a irritação que a mística provoca, sua especificidade ao entrar na literatura moderna se perde.
Minha contribuição será procurar entender melhor esses procedimentos como parte de uma mística própria da arte moderna. Ela se serve do trabalho estético enquanto atividade imanente para praticar uma ascese que pretende, a partir das minúcias profanas da arte, alcançar uma experiência sublime de alcance existencial abrangente. Para além dos horizontes da produção e da recepção estética, da escrita e da leitura, há, atravessando-os, o desejo de uma experiência que suscita uma prática ascética e uma espécie de gnose estética. Tais campos de elaboração dessa mística secularizada levantam a necessidade de uma análise literária que extraia da escrita e da leitura não só estruturas textuais, efeitos de recepção ou reflexões internas de dinâmicas sociais, mas focalize no exercício dessas três camadas de interpretação o que, para tal mística moderna, é mais premente: uma gnose sem conhecimento racional, empírico, fixo, e uma experiência de epifania. A análise mostrará como esse desejo de experiência sublime via arte moderna condiciona todo tipo de procedimento estético, e tais produções textuais contêm, tanto na invenção escrita quanto nas potencialidades da leitura, uma prática ascética, que serve como caminho, travessia ativa para se chegar à experiência e à gnose. Tal ascese se intensifica na atividade da escrita e da leitura, mas pretende abarcar, com a transfiguração do olhar existencial, qualquer outra atividade e acontecimento vivido. Em outras palavras, se no místico tradicional a principal atividade ascética, que pretende servir de estopim para a modificação de todas as outras vivências, está nos vários modos de meditação e oração, no místico secularizado da arte moderna, está no contato com o objeto estético: a produção e a recepção da obra ou a reflexão e interpretação sobre ela (daí o fato de que o crítico, o teórico ou o filósofo como um desdobramento do artista configure uma ascese diversa do artista mas mantenha todo o parentesco essencial). Há nesse caso um novo modo de imbricação entre o sagrado e o profano que tem sido intuído por diversas teorias da arte moderna mas não tem sido devidamente analisado e esclarecido.
Podemos ler, a partir do conceito de ascese, com outros olhos os contos de Primeiras estórias. Os contos que colocam em primeiro plano os personagens infantis, “As margens da alegria”, “A menina de lá”, “Os cimos” levam a muitos estudarem “o motivo infantil” na obra, como é o caso de Henriqueta Lisboa (COUTINHO: 1991, p. 170- 178). Nosso foco pretende mostrar que há neles uma pesquisa da formação psicológica do sujeito, em que se analisa o pensamento e o afeto da criança. O interesse de Rosa nesse estágio infantil se detém naquilo que o adulto, o sujeito formado, quer recuperar: o deslumbramento com as coisas, ou seja, um simples peru, um tucano, a aurora. Isso em geral outros intérpretes obsevam. Porém o próprio menino não consegue lidar bem o excesso da alegria: “E, de olhos arregalados, o Menino, sem nem poder segurar para si o embevecido instante” (ROSA: 1972 , p. 171). O curioso é que esses momentos de epifania infantil estão enredados numa série de conflitos psíquicos infantis que prefiguram buscas existenciais essenciais que o adulto aprende a evitar, esquecer, recalcar ou desprezar. Por exemplo, o menino de “Os cimos” constata que “a gente nunca podia apreciar, direito, mesmo, as coisas bonitas ou boas, que aconteciam” (ROSA: 1972 , p. 170), depois dessa frase há uma exposição da teoria infantil: se algo vem inesperadamente, não estamos devidamente “arrumados” para a receber, se já é esperado, não “tinham gosto de tão boas”, ou estão misturadas com “as outras coisas, as ruins”, ou porque “faltavam ainda outras coisas” para configuram um todo harmônico, ou ainda, porque “já estavam sem caminhando, para se acabar” (ROSA: 1972 , p. 171). Esse momento do texto exemplifica a própria estrutura contraditória da estória: o menino foi viajar junto com o tio porque a mãe está doente. No decorrer da viagem, o menino goza da situação de estar de férias, mas, por outro lado, simultaneamente sofre pela ausência e situação da mãe. Logo, a teoria infantil, que podemos chamar de fracasso hedonista, procura encontrar um modo de fruir, talvez controlar, os “bons momentos”, mas constata a impossibilidade. Por trás dessa busca por experimentar com perfeição os bons momentos, está a promessa deles de um estado paradisíaco frustrada pela condição trágica do homem representada pela doença da mãe, causa da angústia do filho não só pela sua ausência na viagem, mas pela ameaça de uma ausência absoluta, a morte. A morte da mãe, para uma criança (mas também para o adulto, na maior parte dos casos), é a pior coisa que pode acontecer. Logo, por trás de todo o deslumbramento com as coisas, há uma situação trágica cruel que no final se desfaz, a mãe fica curada, o que supõe a vitória da fé infantil clamando que “em seu mais forte coração, declarava, só: que a Mãe tinha de ficar boa, tinha de ficar salva!” (ROSA: 1972 , p. 173).
Portanto, observa-se que há uma contradição afetiva da angústia e do deslumbramento infantil que introduz no pensamento do personagem o que chamaremos da formação de uma ascese. Para além de uma situação psicológica a que o sujeito reage, o menino do conto constrói para si uma teoria para lidar com seus conflitos práticos diante da relação do eu com a experiência. Quando o eu se dá conta de sua responsabilidade na construção de sua própria consciência, ele procura formas singulares de lidar com os problemas reais, que, para além de uma tentativa de conservação hedonista do prazer, há aqui um questionamento existencial das possibilidades da experiência diante da condição trágica. Daí a pesquisa estética da ascese em formação no pensamento infantil ser um elemento a nosso ver imprescindível na obra de Rosa.

Referências Bibliográficas:
CASTRO, Dácio Antônio. Primeiras estórias: roteiro de leitura. São Paulo: Ática, 1993.
COUTINHO, Eduardo de Faria (org.). Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.
COVIZZI, Lenira Marques. O insólito em Guimarães Rosa e Borges. São Paulo: Ática, 1978.
ROSA, Guimarães. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972.
SANTOS, Iolanda Cristina dos."A poética do pensamento infantil na obra de João Guimarães Rosa". Revista Línguas & Letras. Vol. 8, n. 15, 2007, p. 131-146.
UTÉZA, Francis, JGR: Metafísica do Grande Sertão. São Paulo: EDUSP, 1994.

Palavras-chave: Mística secularizada, modernidade, literatura brasileira

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