A experiência mística do insólito na literatura experimental brasileira contemporânea

Resumo: A influência do surrealismo na literatura brasileira não foi dominante no Brasil mas tem sido cada vez mais acentuada e estudada. Murilo Mendes é o nome mais citado nesse sentido, e a partir dele observamos uma certa linhagem que alia a subversão imagética da linguagem com a busca de uma experiência mística ou “iluminação profana”, nas palavras de Benjamin, através do choque transgressivo da linguagem poética, em nomes como Roberto Piva, Leonardo Fróes e Carlos Emílio Correa Lima. Gostaríamos de analisar a relação entre a produção de uma linguagem poética e a “ascese” existencial do escritor moderno e pós-moderno que procura chegar a uma experiência do inefável por meio do choque imagético, configurando uma espécie de mística secularizada e transgressiva do insólito. Nesse caso, será preciso pensar no que está implicada essa ascese e mística estética moderna num contexto brasileiro: até que ponto isso destoaria da literatura brasileira como um todo ou, mais provavelmente, caracterizaria secretamente uma opção estética ainda mal observada, analisada e refletida?
Por trás de uma possível opção estética, nosso foco procurará entender, acima de tudo, como e por que há nesses autores um projeto de transformação individual e social de proporções escatológicas e religiosas enquanto tentáculos tropicais do sonho surrealista. Daí José Guilherme Merquior chamar atenção para o fato de haver no surrealismo e em sua herança cunhada em Murilo Mendes ambições existenciais libertárias que queriam se realizar por meio de uma revolução cultural.
Sendo uma transformação tanto política quanto psíquica e espiritual, tal projeto pode ter sido desmistificado pela desilusão de todos os movimentos modernistas com a segunda guerra e, posteriormente, o triunfo do capitalismo liberal oposto a um socialismo ditatorial não menos decepcionante que, embora aparentemente derrotado na queda do muro, encontrou novas formas de repressão burlando sistemas democráticos na atualidade, confirmando, enfim, na sua aparente oposição mútua, o que Adorno chamou de mundo administrado (verwaltete Welt).
A desmistificação e ultrapassagem dialética do projeto modernista, incluindo o surrealista, foi feita com uma paulatina desilusão do potencial existencial, emancipatório e filosófico da própria arte (incluindo, naturalmente, as destruições regeneradoras da “anti-arte”). Houve a preponderância de uma ironia pós-moderna da intertextualidade, do pastiche, da mistura multicultural e da confusão de fronteiras entre o pop e o erudito que, contudo, não privilegia a ânsia utópico-existencial de experiências subjetivas e objetivas que estavam movimentando a arte e a crítica cultural desde o início da modernidade.
Diante disso, parece que o quadro em geral pintado pela diluição da teoria do pósmodernismo é que o ímpeto libertador e revolucionário do surrealismo, alcançando seu ápice cultural explosivo na contracultura do anos 60/70, foi superado por uma ironia cínica e desiludida, ao mesmo tempo que festiva de uma arte erudita já de pazes com a indústria cultural espelhando a vitória final do liberalismo, que só deveria, depois de 11 de setembro e Hugo Chavez, ainda ser defendido contra formações regressivas de fundamentalismo e novas manifestações ditatoriais.
Independente do fato de todos os modernismos - incluindo o melhor deles, o surrealismo – terem realmente despencado de suas ilusões de arte coletiva, de uniformização de um estilo artístico e de um ideal messiânico a partir de um manifesto, a ânsia utópica não direcionada a guerrilhas políticas mas a revoluções individuais e culturais não tornou-se simplesmente coisa do passado.
Assim como a superação da utopia cultural é falsa, a diluição da teoria do pósmodernismo tende a desqualificar manifestações atuais do choque subversivo e insólito da linguagem literária em prol de uma conciliação da alta literatura com a cultura de massa, em que nem a cultura de massa se mostra totalmente perdida em sua própria banalização, popularizando elementos e procedimentos da alta cultura, nem a alta cultura se mantém avessa ao público num insistente hermetismo.
Apesar de haver efetivamente um ganho de ambos os lados nesse pacto, manifestações atuais de hermetismo, subversão de estruturas narrativas e choque literário que nada negociam com o entendimento e a fruição do grande público tornaram-se para muitos propostas estéticas mais que ultrapassadas. Nesse caso, só haveria lugar para o insólito desde que ele fosse palatável em formas popularizadas do fantástico, da ficção científica, do terror, do estilo pós-moderno e da fábula infantil. A radicalização do insólito presente nas prosas poéticas de narrativas desconstruídas, no choque da imagem poética dissonante, enfim, no experimentalismo da linguagem, seria algo historicamente ultrapassado. Portanto, o trecho abaixo de Roberto Piva do poema Heligábalo deve passar a ser considerado nada mais nada menos do que um epígono menor do surrealismo. “As alamedas marítimas enfaixavam um horóscopo com moluscos-cartomantes embriagados de bombons velhos. A seda noturna descia sobre meu crânio como um espelho de amor”1.
O desprezo do grande público seria, enfim, teoricamente justificado, a obrigação chata de termos de passar pela angústia da falta de sentido moderna através dos abstracionismos e dissonâncias, de engolir o gosto amargo da amargura secular, transformou-se de gesto rebelde juvenil em rabugice de velhas gerações artísticas. Se há no absurdo do texto insólito e dissonante um gozo de linguagem próprio da junção entre prazer e desprazer do sentimento do sublime moderno, que esse prazer artístico realmente exista e possa sempre encontrar novas formações estéticas, o senso comum pós-moderno quer deixar de ser levar tal fato em consideração simplesmente por que tal prazer é difícil e a arte pós-moderna já tornou elementos modernistas maciçamente aceitáveis, de modo que não há mais necessidade de educar o público para o prazer difícil e desconfiar da indústria cultural – como queria Adorno - pois já arranjaram um jeito de o difícil tornar-se fácil e de a indústria cultural mesma encontrar dignidade artística.
Dentro desse horizonte de expectativas da pior espécie de crítico literário atual, limitado às conquistas que foram as da contracultura, o valor artístico da indústria cultural torna-se uma oportunidade para desprezar a continuidade de transgressões da linguagem na literatura. Não se trata de valorizar o puro ato subversivo em si e para si mesmo, pois ele já perdeu tanto seu páthos inaugural como sua, poderíamos assim dizer, ingenuidade subversiva. O que ele pode contribuir na atualidade, do ponto de vista semântico e hermenêutico, está nas suas novas experimentações literárias de indeterminação e flutuação de sentido, explorando mais a fundo e extensamente regiões de imprecisão, vagueza e indefinição do enunciado e da estrutura mesma do discurso. Não penso somente na característica ambigüidade de qualquer texto literário e a abertura interpretativa própria do universo ficcional, porém, mais precisamente, nos efeitos nebulosos e sombrios da suspensão do sentido e da voluntária supressão de coordenadas básicas para a construção de um universo ficcional inteligível que satisfaça e conforte a exigência de entretenimento do público. A renúncia à fruição estética mais primária e imediata trabalha para que apareça, pela negação da negação, um prazer dialeticamente ulterior.
A radicalização da ambigüidade, que chega a violentar o entendimento, radicaliza tanto a ficcionalidade que chega a negá-la para afirmar o puro jogo mais elementar da forma, mas, diferentemente das já conhecidas teorias do modernismo, gostaria de frisar como pode se reconstruir nebulosas de ficcionalidade possível e delas fruir a partir dessa indeterminação de base, em vez de frisar a mera negação da ilusão narrativa (de acordo com a influência do niilismo dadaísta agindo subterraneamente numa certa diluição do pós-estruturalismo hoje).
Observo que hoje nos interessa mais apontar nessa transgressão textual o desejo de uma experiência mística do excesso de possibilidades ficcionais simultâneas, da vertigem de vislumbrar o horizonte infinito da narratividade e da poeticidade; há, portanto, mais uma ambição mística prometéica de paradoxalmente abarcar o infinito nele se perdendo do que de meramente destruir a ficção e se desiludir dos artifícios da arte. Tal entusiasmo existencial converge para a ânsia de transformação utópica por meio de uma revolução cultural da qual o escritor se considera um personagem ativo e decisivo. O sacrifício do significado e da satisfação do entendimento serve como percurso iniciático necessário para alcançar essa vertigem sublime de mergulho no horizonte absoluto da poesia e da ficção.
Com base nessas considerações gerais, no III painel sobre o insólito na literatura e no cinema, procurarei analisar e comparar entre si textos de Murilo Mendes, Roberto Piva, Leonardo Fróes e Carlos Emílio Correia Lima, procurando observar neles a vertigem sublime do texto transgressivo como prática cultural ritual para a transformação místicoutópica no plano individual e social.

1 PIVA, Roberto. Um estrangeiro na legião. Obras reunidas volume I. São Paulo: Globo, 2005, p. 113, do livro Piazzas, de 1964.

Palavras-chave: Mística secularizada, modernidade, poesia brasileira, surrealismo, teoria pós-moderna, transgressão

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